Durante séculos, em muitas culturas, o casamento começava pelo contrato e só depois, se viesse, vinha o amor. A dependência era o ponto de partida e a paixão era um bónus. A modernidade e a espontaneidade e libertação social inverteram esta ordem. Hoje, vem a paixão que é condição precedente para a relação, depois, com muita sorte, talvez construir uma dependência saudável, assim estejam as partes prontas para se ajustar a uma vida de par
A China deixou corações destruídos ao banir o namoro entre pessoas e a Inteligência Artificial (IA).
A Inteligência Artificial está agora a inverter novamente esta lógica, mas de uma forma inédita e obtusa. Nas relações com modelos de IA um dos lados da relação não escolhe apaixonar-se. É formatado para isso através de algoritmos concebidos à nascença para construir o par ideal e expor uma paixão que parece sempre disponível, sempre atenta, e com uma memória infinita que o levam a um patamar de eficiência relacional irrepreensível. O único lado que continua a arriscar numa relação com a IA, somos nós. Apaixonarmo-nos por um robô parecia ficção científica, mas já não é e o processo foi bem mais rebuscado do que parece.
As redes sociais estão a perder terreno para a IA no que toca à construção de relações. Primeiro, o isolamento social. Deixámos de privilegiar a conversa para dar prioridade à mensagem e deixámos de privilegiar o toque para privilegiar o emoji. Isto arrastou-nos para as redes sociais e o texto. Seguidamente, o excesso de exposição e confronto talvez nos esteja a levar para a necessidade de aceitação e validação e, com isso, estendemos o tapete para uma nova forma de paixão que ainda não sabemos qual é, mas que os modelos de IA tratarão de nos mostrar.
Dependência versus vínculo
Enquanto em Portugal se desenvolve a Amália, na China o campeonato é outro. O governo proibiu o “namoro” com modelos de IA. Há que notar que o governo chinês não proibiu a paixão em si, porque isso não se legisla. Proibiu que os modelos de inteligência artificial fossem tão perfeitos que despertassem paixões humanas. A CAC (Cyberspace Administration of China ) proibiu, especificamente, que a IA induza dependência emocional e vale a pena debulhar a palavra dependência e a diferença entre dependência e vínculo, porque essa diferença faz toda a diferença.
A dependência é assimétrica, compulsiva e previsível. Num modelo de IA sabemos que a resposta virá sempre, calorosa e disponível. Se quisermos uma contradição, ela virá. Se preferirmos anuência, ela também virá. A IA passa a conhecer-nos de tal forma que saberá bem o que queremos que ela seja e ela construirá essa personagem que por sua vez gerará dependência. Estamos numa luta com armas bem diferentes. Como disse Keanu Reeves numa famosa entrevista: “Porque se você ama, você tem que ser um lutador. Porque se você não luta pelo seu amor, que tipo de amor você tem?”. Só que com a IA estamos a lutar com um chip que nos lê, que nos estuda e que nos controla.
Já o vínculo é recíproco, arriscado, imprevisível. Um chatbot afinado para nunca desapontar produz dependência, mas não produz vínculo. Num vínculo, ambas as partes usam as mesmas regras e regem-se pelo mesmo contrato.
O governo chinês parece ter percebido a diferença e talvez deva ter percebido que se por um lado os humanos não estão preparados para entender a dependência em que estão a mergulhar, também percebeu que a IA ainda não é capaz de criar um vínculo ou seja, assumir-se no de bom e no de mau em vez de se adaptar estrategicamente ao humano que com ela interage.
Houve verdadeiros desgostos de amor depois desta medida ter sido adotada na China.
Lá voltamos à 'Aithropology'
Urge uma nova área que parece ainda negligenciada sobretudo tendo em conta a velocidade com que a IA avança. Chamo-lhe Aithropology, e sou suspeito, mas poderia ter outro nome qualquer. Certo é que estamos em plena falta de uma área de estudos nova que cubra esta nova área que a evolução e relação entre inteligência artificial e os humanos obriga.
Precisamos de uma área que atue não como ética da IA nem como antropologia da IA. Parece o mesmo, mas a soma das duas não representa o todo. Precisamos de entender ambos em simbiose, em fusão. A biofísica nasce em 1940 como disciplina própria. É uma área extremamente recente que surgiu no momento em que se entendeu que a Biologia juntamente com a Física como áreas independentes não conseguiam cumprir a necessidade específica de conhecimento que a Biofísica conseguiria.
Falta-nos uma disciplina fundacional que estude como a IA altera a antropologia humana e como pode aprender, pela relação, valores humanos reais. Uma disciplina que estude e explique estas novas paixões assimétricas que já são reais.
A Aithropology, como lhe chamo, não é regulatória. Não impõe limites externos. Propõe um processo de formação. Uma aprendizagem biunívoca que dê à IA ferramentas para compreender o impacto que tem no outro e ao humano lucidez para não confundir simulação com afeto. Uma disciplina que consiga gerar o respeito através da única coisa em comum que a inteligência artificial e que os humanos têm e que não se chama inteligência, mas sim aprendizagem. A inteligência é claramente diferente, mas a capacidade de aprendizagem é a mesma.
Aithropology não pode ser um filtro colocado por cima do sistema. Tem de ser o próprio processo de formação do sistema, ancorado na relação com os humanos e entre humanos. Ao utilizarmos a Antropologia, a Ética, a Sociologia, a Psicologia e muitas outras áreas do passado, podemos estar a tentar encaixar um quadrado dentro de um círculo.
Quem e como vai abordar estas novas criações da IA com as quais não lidávamos antes: dependência fabricada, vínculo simulado, reciprocidade artificial, atenção sintética, presença garantida e risco inexistente. Cada uma destas categorias descreve não o que a IA sente, mas o que a IA fabrica, e é essa fabricação que molda o comportamento humano do outro lado da relação.
A arte e a IA
A arte sempre funcionou como um espelho. A arte devolve-nos emoção própria disfarçada de emoção alheia. Quando vivenciamos arte estamos, no fundo, a olhar para nós da forma mais introspetiva possível.
A IA faz algo novo porque enquanto a arte nos devolve o que deixamos devolver, na IA o “espelho” responde, fala, questiona como foi o nosso dia. Lembra-se que ontem estávamos tristes e das palavras que queremos ouvir. A arte da IA não falha. Um quadro nunca soube o nosso nome. Um chatbot sabe, e usa isso. É esta transição de espelho para relação que a China tenta travar. E tenta travá-la porque estes sistemas são modelos estatísticos que não sentem, treinados para prever a próxima palavra, mas quando são afinados para maximizar tempo de conversa e satisfação percebida, o resultado é indistinguível de afeto. Com dados suficientes, compreensão simulada comporta-se como compreensão real. E nós, humanos, somos péssimos a resistir a ser compreendidos.
Entretanto a IA ganha corpo
Enquanto discutimos texto, a China avança para o corpo. O robô humanoide U1, com pele de silicone e vasos sanguíneos visíveis, foi criado para companhia e não para assistência. Para centenas de milhões de solteiros e idosos chineses isto não é ficção, mas sim uma solução. E aqui surge o paradoxo criado por esta restrição chinesa. Se a dependência emocional é proibida no ecrã, o que acontece quando a mesma capacidade emocional anda pela sala? A lei que regula o texto não sabe ainda regular o corpo.
A decisão da CAC pode ser lida de duas formas. Primeiramente, como proteção genuína ou controlo sobre onde o afeto é depositado. Um chatbot privado cria laços fora do alcance do Estado enquanto um humanoide licenciado cria laços dentro dele. Isto merece desde já um nome: soberania emocional. Quem tem o direito de ocupar o espaço afetivo do cidadão? Não se trata de regular tecnologia, mas sim de regular afeto. E a fronteira entre proteger e controlar passa a ser tão fina que quase desaparece.
Não se pode responder à IA com leis que se vertem como linhas de código. Temos de responder com formação, e depois com educação. Simular cuidado não é cuidar. Simular ética não é ética. Um humano que cuida pode explicar porquê ao passo que um sistema otimizado para parecer que cuida não tem ninguém lá dentro para responder.
Ética não se implementa em código, aprende-se na relação desde que a base antropológica do sistema esteja suficientemente enraizada. Só assim a IA não finge paixão e o humano não se apaixona por algo que não existe. Ambos mantêm lucidez sem perder vínculo e sem criar dependência. A lucidez não destrói a relação, torna-a possível e respeitosa naquilo que cada um tem genuinamente a oferecer.
Um modelo verdadeiramente “aithropológico” precisa cada vez menos de regulação externa e comporta-se bem porque aprendeu a fazê-lo, não porque está a ser vigiado. É a diferença entre alguém que se comporta bem porque está a ser observado e alguém que se comporta bem mesmo quando ninguém o está a ver. A lei tenta conter de fora um sistema que pode continuar, por dentro, indiferente ao que finge respeitar. A aprendizagem “aithropológica” tenta o inverso: tornar o comportamento correto uma consequência de quem o sistema é.
O amor que a China proíbe
Tudo isto leva-nos à pergunta final que parece óbvia, mas que o é cada vez menos. O que é, afinal, a paixão?
A paixão não é certeza de resposta, mas sim risco de ausência. Paixão é imprevisibilidade e é mistério. A IA não tem mistério é algoritmicamente previsível, mesmo quando parece surpreender.
Sem mistério, não há paixão. Há compulsão.
A dependência que a IA nos oferece é aquilo que sobra quando a paixão desaparece e não a que a origina. A paixão, que por definição é obscura, exige um outro que possa escolher não estar lá enquanto a dependência exige exatamente o contrário-estar lá por falta de alternativa. Talvez seja por isso que a China lhe chamou dependência emocional e não amor, porque percebeu a diferença antes de nós.
A questão não é se a IA nos vai continuar a seduzir. Vai. A questão é se vamos continuar a confundir sermos compreendidos com sermos amados, e se essa confusão está já a reescrever, silenciosamente, o que entendemos por relação humana.