Chegou a casa, pôs um filme no videogravador e desapareceu. Décadas depois, a polícia ainda não desistiu de procurar Carla

Carla Beth Anderson, de 23 anos, vivia em Wadena, no estado norte-americano do Minnesota. Desapareceu em novembro de 1987

“Alguém a levou? Estará noutro lugar? Estará viva?”

Estas são as perguntas que têm assombrado Dan Anderson nas quase quatro décadas desde que a irmã mais nova, Carla Anderson, então com 23 anos, desapareceu do apartamento onde vivia em Wadena, no Minnesota.

As memórias da infância de ambos ainda lhe surgem na mente com a regularidade de um relógio: o clique de uma câmara quando Carla, com nove anos, segurava uma espátula junto ao fogão da caravana no Alasca, ou o som do ugira-discos enquanto ela cantava, a plenos pulmões, ‘Delta Dawn’ repetidamente no quarto, antes de os irmãos baterem à porta a pedir-lhe que baixasse o volume.

E depois a memória mais perturbadora de todas - quando Carla desapareceu em novembro de 1987, com um filme alugado ainda no videogravador e a porta do apartamento trancada com a sua bolsa lá dentro.

A cozinheira do Hardee’s, carinhosamente conhecida como ‘Spud’, tinha acabado de passar a noite fora com a mãe e o padrasto a celebrar o facto de ter sido escolhida como funcionária do mês.

A família, incluindo os três irmãos e os pais de Carla, viu-se subitamente a espalhar-se com um exército de voluntários para distribuir cartazes com a sua foto, à espera desesperadamente de buscas aéreas, a falar com jornalistas no meio de um frenesim mediático e à procura do seu rosto nas multidões.

Mas, ano após ano, as buscas não deram em nada. O seu paradeiro tem escapado aos investigadores e suscitado teorias, tanto plausíveis como bizarras, entre a comunidade de 4 mil pessoas, à medida que os habitantes da cidade tentavam compreender o que poderia ter acontecido à jovem.

À medida que álibis e testes de polígrafo desmentiam as teorias da polícia e o caso passava de um investigador para outro, as entrevistas de jornal dos anos 80 e 90 captam o apelo desesperado da família por respostas, que se transformou numa aceitação sombria e na esperança de que Carla não estivesse algures por aí a sofrer.

“A minha mãe ficou convencida muito cedo de que ela já não estava viva”, disse Dan Anderson à CNN na sexta-feira. Antes da sua morte, a mãe de Carla, Roberta Wells, tinha providenciado uma lápide partilhada para Carla e o seu irmão Scott, que faleceu em 2007.

Mas, por vezes, ele deixa a esperança entrar.

“Será que ela simplesmente não consegue entrar em contacto?”, perguntou o irmão numa conferência de imprensa recente ao lado de autoridades. “Ela já não teria o número de telefone de ninguém”.

Uma nova recompensa de 25 mil dólares por informações sobre o seu desaparecimento renovou a esperança de que os habitantes desta pequena cidade, muito unida, ajudem a reconstituir o que aconteceu naquela noite de novembro.

A chefe da polícia de Wadena, Naomi Plautz, tem a certeza de uma coisa: “Alguém sabe o que aconteceu”.

“Este é um daqueles casos que simplesmente nos assombra”, disse a responsável à CNN na quinta-feira. “Não estávamos a trabalhar no caso desde o início, mas o peso no coração passou de um chefe para outro, ou de um investigador para outro, à medida que se reformavam… esses fantasmas, esses medos, ficam connosco”.

Carla Anderson desapareceu depois de celebrar um prémio concedido pela sua entidade patronal, em 1987. (Departamento de Investigação Criminal do Minnesota)

“Soube, naquele momento, que a vida nunca mais seria a mesma”

Embora a família de Carla se preocupasse com o facto de a sua estatura e uma dificuldade de aprendizagem a tornarem vulnerável ao viver sozinha, Dan Anderson descreveu a irmã de 1,47m e 41 quilos como “ferozmente independente”.

“Depois do ensino secundário, ela estava ansiosa por seguir o seu próprio caminho, e foi o que fez… arranjou um emprego, tinha a sua própria casa”, recordou o irmão. “Ela estava simplesmente entusiasmada com o que estava por vir. Estava como muitas outras jovens… ansiosa por encontrar a pessoa certa e, quem sabe, constituir família”.

Carla tinha saído para jantar naquela fria sexta-feira à noite com a mãe e o padrasto, antes de alugar filmes e ser deixada nos Greenwood Apartments por volta das 20:00, segundo a polícia. Era suposto ter ficado com os pais, mas estes estavam a trabalhar na sua nova casa junto a um lago, a cerca de uma hora de distância, e Carla não queria ir, de acordo com Dan.

A mãe, de quem ela era incrivelmente próxima, planeava arranjar o cabelo de Carla para a foto de “funcionária do mês” na segunda-feira. Naquele fim de semana, ligou várias vezes para Carla, mas ninguém atendeu, contou Roberta ao Brainerd Daily Dispatch, em 2007.

Foi então que Roberta Wells, preocupada, foi ao apartamento da filha, onde o encontrou estranhamente intacto. Não havia sinais de arrombamento, segundo a polícia. As chaves dela e um casaco arco-íris da Hardee’s, que acabara de receber por ter sido a funcionária do mês, eram os únicos pertences que faltavam, disse Plautz.

“Soube naquele momento que a vida nunca mais seria a mesma. Imediatamente, chamei o meu marido e fomos até à esquadra da polícia”, contou a mãe, Roberta Wells, ao The Dispatch.

Naquela segunda-feira de manhã, por volta das 09:00, Dan recebeu uma chamada da mãe. Carla, que adorava o seu trabalho na cadeia de fast-food, não tinha aparecido no trabalho, o que não era habitual. Ele fez imediatamente as malas e conduziu cerca de três horas desde Eagan, onde trabalhava, até Wadena.

Foi então a vez dele de fazer a chamada angustiante: contou ao pai deles, Marvin Anderson, que apanhou um avião a partir da sua casa no Alasca para ir à procura da filha.

Carla, que tinha vindo a participar num programa de competências para a vida e a reunir-se com uma assistente social, era vítima de bullying por parte de algumas pessoas da cidade e a mãe disse ao jornal que receava que se aproveitassem dela. Sabendo que ela era vulnerável, os três irmãos estavam sempre atentos à jovem, conta Dan Anderson.

“Há muitas pessoas mal-intencionadas por aí, mas não se pode proteger alguém o tempo todo, por mais que se queira acreditar que é possível”, afirma.

Dan, que estava na casa dos 20 anos, quando a irmã desapareceu, descreveu Carla como uma amante de música, atenciosa, alegre e cheia de vida, que gostava de passar tempo com a família, era leal aos amigos e “nunca tinha nada de mal a dizer sobre ninguém”. Dan Anderson recorda com carinho os verões a nadar no lago junto à cabana dos avós e as caminhadas nas viagens ao Alasca com Carla e os seus dois irmãos mais novos.

“O caso mais frustrante em que já trabalhei”

Sem sinais de luta no apartamento de Carla, Lane Waldahl, um investigador responsável pelo caso na altura, acreditou inicialmente que ela tivesse saído de lá por vontade própria, de acordo com uma reportagem do Brainerd Daily Dispatch de 1987.

Na noite em que desapareceu, havia um incêndio a arder no pântano nas proximidades e ela pode ter ido ver, teorizou Lane Waldahl, de acordo com o Grand Forks Herald. Naomi Plautz disse que o incêndio poderia ter sido visível do apartamento dela, mas não há provas que sugiram que ela tenha ido vê-lo.

“Não sabemos se ela saiu para dar um passeio, não sabemos se alguém estava à porta da frente e ela foi com essa pessoa. Não sabemos nada disso”, diz Dan.

Mais tarde, a polícia suspeitou que pudesse ter havido crime “porque ela nunca teria escolhido desaparecer e permanecer desaparecida”, diz Naomi Plautz à CNN.

Nas primeiras semanas após o desaparecimento, havia esperança: a família ofereceu uma recompensa de 10 mil dólares e foram distribuídos cartazes num raio de 100 quilómetros, debaixo de fortes nevões.

O pequeno apartamento dos pais de Carla estava abarrotado de familiares e amigos que apareciam constantemente para levar refeições e oferecer o seu apoio, enquanto todos choravam juntos, recorda Dan Anderson.

O desaparecimento foi “absolutamente devastador” para a mãe, que passava muito tempo com Carla e mantinha contacto regular com ela, conta.

O namorado da Carla e os membros da família foram descartados após passarem nos testes do polígrafo, de acordo com Naomi Plautz.

“Era caótico… tentar recuar… Do que te lembras? Há alguma pequena informação que nos ocorra e que talvez conduza a algo?”. Dan lembra-se de a família se questionar assim.

Mas pouco depois, a então chefe da polícia Joyce Kopp revelou que os investigadores não tinham pistas, referindo-se ao caso como “o mais frustrante em que já trabalhei”, de acordo com uma reportagem de dezembro de 1987 do jornal The Brainerd Daily Dispatch.

Voluntários ajudaram numa busca terrestre e aérea que não revelou nada. Mais tarde, o FBI envolveu-se na investigação do que as autoridades acreditavam ser possivelmente um rapto.

A certa altura, os investigadores analisaram se um carro castanho roubado perto do prédio de apartamentos de Carla nesse mesmo fim de semana - e que nunca foi recuperado - poderia estar relacionado com o caso. A atual chefe da polícia de Wadena revela à CNN que, até hoje, a polícia não encontrou quaisquer provas que indiquem que assim fosse.

“Pode ter sido apenas uma coincidência, embora também possa ter estado relacionado com o desaparecimento de Carla”, afirma.

As buscas infrutíferas agravaram as tensões na família, disse Marvin Anderson ao jornal Brainerd Daily Dispatch, em dezembro de 1987.

Dois anos mais tarde, acreditavam que Carla tinha morrido.

“Tenho uma esperança muito ténue de que ela esteja viva”, disse a mãe ao The Wadena Pioneer Journal, em 1989.

“Eles não abrandaram nem um pouco”

Nas décadas que se seguiram ao seu desaparecimento, suspeito após suspeito foi interrogado, mas nenhuma pista conseguiu aproximar os investigadores da resolução do caso.

“Havia simplesmente muitas incógnitas”, recorda Dan Anderson.

Nos anos 90, um homem que Roberta Wells denunciou à polícia por ter assediado Carla foi ouvido no âmbito da investigação, de acordo com uma reportagem de 1995 do Wadena Pioneer Journal. Admitiu ter estado na zona naquela noite com um amigo, mas disse à polícia que ela não atendeu quando lhe ligou às 21:30. Tanto ele como o seu amigo passaram nos testes do polígrafo.

Em 1995, Lane Waldahl mandou fazer uma projeção da aparência de Carla com a idade dessa altura, leu todas as descrições de corpos encontrados e enviou os registos dentários dela até Boston, revelou ao Wadena Pioneer Journal na altura.

“A Carla provavelmente está morta”, disse então. “O mais importante agora é que o corpo dela seja encontrado”.

O assassino condenado Floyd Tapson também foi inicialmente considerado suspeito, porque tinha como alvo mulheres com deficiências mentais, de acordo com uma reportagem de 1999 do Minnesota Star Tribune. Tapson tinha, no entanto, um álibi que o ilibou do desaparecimento de Carla, segundo o Grand Forks Herald.

voltando à investigação atual, Naomi Plautz afirma que o departamento não está a descartar quaisquer suspeitos anteriores que tenham sido ilibados no passado. Com um olhar renovado e novas tecnologias, como a análise de ADN, a polícia está a seguir pistas antigas e novas.

“Temos, sem dúvida, algumas pistas que estamos a investigar com mais intensidade do que outras”, admitiu.

A família tem-se sentido reconfortada pelo facto de todos os novos chefes de polícia e investigadores que se ocuparam do caso ao longo dos anos se terem empenhado em trazer Carla de volta para casa, agradece Dan Anderson.

“É bastante surpreendente ver que essa dedicação se mantém intacta e que não abrandaram nem um pouco”.

O Departamento de Polícia de Wadena está a retomar a investigação sobre o desaparecimento de Carla Anderson. (Gabinete de Investigação Criminal do Minnesota)

“Nunca imaginei que ela não estivesse connosco para sempre”

As memórias que a família tem de Carla, que hoje teria 62 anos, foram-se desvanecendo com o tempo, embora ainda falem dela sempre que se reúnem.

“Não se quer esquecer as coisas, mas chega-se a esta idade e, obviamente, esquece-se o que aconteceu há muito tempo”, admite Dan Anderson.

A possibilidade de Carla ainda estar algures por aí tornou-se “cada vez mais remota” à medida que os anos foram passando e a espera tem-se feito sentir na família Anderson.

De acordo com Dan Anderson, passados todos estes anos, ainda é demasiado doloroso para o pai, que tem agora 87 anos, falar sobre Carla. O que aconteceu tornou Dan mais cauteloso como pai quando o próprio filho, de 35 anos, estava a crescer.

“Isso mudou certamente a forma como provavelmente criámos o nosso filho, na medida em que não tenho a certeza de que o teríamos deixado sair e pedalar pela berma da estrada para ir até à casa de um amigo a meia dúzia de quilómetros de distância”, afirmou.

Carla não esteve presente nem nos nascimentos nem nas mortes: cinco dos seus sete sobrinhos e sobrinhas nasceram depois de ela ter desaparecido e a sua mãe, o padrasto e o irmão morreram todos sem a terem encontrado.

“O único consolo é que todos acreditamos que ela está agora com a Carla”, diz Dan Anderson sobre a morte da mãe.

Naomi Plautz, que apelidou Anderson de “a queridinha de Wadena”, diz que a polícia está a entrevistar moradores locais e a analisar as inúmeras pistas que tem vindo a receber desde que a nova recompensa foi anunciada.

“Qualquer pequena pista pode levar à sua localização”, sublinha. “Acredito do fundo do coração que alguém que sabe o que aconteceu ainda está entre nós”.

Os membros da família de Carla que ainda estão vivos estão prontos para encerrar este capítulo, mas não conseguem deixar de imaginar a vida que Carla poderia ter tido.

“É muito provável que, a esta altura, ela já tivesse os seus próprios filhos. Como seria a vida dela? É difícil não pensar nisso”, tenta adivinhar o irmão de Carla.

Um ano antes da sua morte e cerca de 20 anos após o desaparecimento de Carla, Roberta Wells falou ao The Brainerd Daily Dispatch sobre a dor que carregava há tanto tempo.

“Por mais vulnerável que eu soubesse que ela era, nunca imaginei que ela não estivesse connosco para sempre”, disse. “Sempre soube que ela seria a minha filha. Sempre soube que seria mãe enquanto vivesse, porque tinha a Carla”.