Começar de novo - Ventura foi, é e sempre será apenas a lebre. E isso já é suficientemente mau.

Para que não haja dúvidas "levantar a lebre" - e é esse o contexto em que estou a usar a expressão - significa suscitar uma questão que estava escondida.

Mas, pela própria etimologia desse conjunto de palavras, a "lebre" é levantada por alguém que não a própria.

Em suma, é um mero instrumento de alguém que, em última análise, será o beneficiário do movimento que essa "lebre" desencadeou.

André Ventura é apenas a pessoa que se atreveu a verbalizar um ideário que esteve escondido durante décadas após o 25 de abril de 1974, mas que nunca desapareceu.

Agora essas pessoas perderam a vergonha e proclamam despudoradamente o que, durante muitos anos, foi considerado indefensável.

E, pior do que isso, põem em prática essa ideologia retrógrada e reaccionária.

Só que já não é somente a gente do Chega - partido cujos militantes e dirigentes têm mostrado ser pessoas desqualificadas, incivilizadas e inidóneas, ou, no mínimo, não merecedores de qualquer confiança - que actua dessa maneira.

Ironicamente, mas sendo esta uma ironia bem negra e amarga, no tempo do Estado Novo, as mentiras não eram tão alarves e ostensivas, e a brutalidade, a violência e o desprezo pelos valores e pela legalidade formal - o Regime derrubado no 25 de Abril era um Estado normativo - eram escondidas e não exibidas de forma tão frontal e descarada.

Esse era o tempo dos vícios privados e das públicas virtudes.

Mas isso significava que, ao menos, o Vício ainda manifestava algum pudor e deferência para com a Virtude.

Agora vale tudo e as condutas reprováveis tornaram-se generalizadas e já não se restringem à área da política.

Não tenho saudades desses tempos pérfidos, miseráveis e grotescos, mas, decididamente, também não é este o Mundo em que quero viver.

E, ainda mais do que isso, não é este o Mundo em que quero que as minhas netas e o meu neto venham a viver.

Neste momento, as poucas vergonhas mais ostensivas manifestam-se nas áreas da Educação e da Administração Interna - esta última, pondo já em perigo a credibilidade da Polícia Judiciária, logo da vertente penal do sistema judiciário no seu todo.

Repito, poucas vergonhas e já não só situações escandalosas.

O ministro da educação, como principal responsável pelo sector, está a brincar, de forma irresponsável e até agora impunemente, com o futuro de milhares de jovens e das suas famílias.

E no que respeita ao MAI, basta recordar o honorável e honroso comportamento manifestado pelo infelizmente já falecido ex-ministro Miguel Macedo perante imputações bem menos graves.

Imputações que, recordo, vieram a mostrar-se inconsistentes e infundamentadas.

Por muito menos, muitíssimo menos, o Presidente Jorge Sampaio dissolveu o Parlamento quando Pedro Santana Lopes era o primeiro-ministro do país.

Claramente, os tempos eram outros.

Actualmente são muitos os que temem que uma dissolução da Assembleia da República irá ter como consequência o reforço do Chega e um acréscimo da ingovernabilidade do país.

Como se a continuação do estilo de governação mantido pelo PSD de Luís Montenegro e anteriormente pelo PS de António Costa não fossem, em boa verdade, as principais razões que tornaram possível o crescimento da representação política do partido de André Ventura.

O caso Spinumviva, que está longe de estar encerrado, teve consequências.

E o mesmo pode ser afirmado acerca das circunstâncias que provocaram a queda do governo presidido por António Costa e a sua "saída de cena" para se tornar o presidente do Conselho Europeu.

Independentemente de outras motivações que não podem ser ignoradas, esse crescimento eleitoral traduz inequivocamente um profundo descontentamento com os partidos que, de uma maneira ou de outra, estiveram ligados à governação do país deste o 25 de novembro de 1975.

Mesmo que indirectamente, como aconteceu nos tempos da Geringonça (pese embora o declínio na votação do Bloco de Esquerda e do PC também resultem de outros factores não negligenciáveis).

Como já afirmei várias vezes (e aqui mantenho), a dissolução da Assembleia da República não é a única solução para a crise persistente em que o país está mergulhado.

A mudança de primeiro-ministro e um retorno do PSD à sua matriz identitária são possíveis.

Se os problemas que afectam os portugueses e as portuguesas começarem a ser resolvidos, a dimensão da votação no partido de André Ventura irá reduzir-se àqueles que genuinamente anseiam por um país em que o autoritarismo reaccionário volte a ser dominante.

E essa resolução dos problemas nacionais pode acontecer sem uma imediata dissolução do Parlamento.

Ou não.

Ainda assim, relembro que Jorge Sampaio não dissolveu a Assembleia da República quando Durão Barroso decidiu mudar-se para Bruxelas para se transmutar em presidente da Comissão Europeia, e deu ao PSD e ao CDS, então Partido Popular, a possibilidade de continuar a governar Portugal.

E é essa a posição que aqui sustento como a preferível.

Pelo menos por enquanto e sob condição de uma alteração estratégica da política seguida pelos partidos da AD.

Aliás, em consonância com as promessas que fizeram na última campanha eleitoral, com o consequente abandono da aproximação à plataforma política defendida pelo Chega que tem sido mantida.

Se isso não acontecer, tal significará que o chamado centro-direita deixou de o ser para se transformar numa nova direita em que as preocupações com o Estado de Direito e os direitos humanos terão desaparecido.

E a "lebre" deixará de ser necessária porque o que era uma "excepção" se tornou o "novo normal".

Se isso acontecesse, e, sinceramente, para mim tal não é, de todo, inevitável, nada de bom daí resultaria para os portugueses e as portuguesas.

Nem para o país.

Já agora, será que, à luz do que tem vindo a acontecer com os autarcas eleitos nas listas do Chega, alguém acredita que esse partido sobreviverá sem André Ventura?

Socorrendo-me de uma imagem que se tornou famosa perante os resultados da última eleição parlamentar, é vital e indispensável que as várias cigarras (os partidos políticos tradicionais) mudem radicalmente a sua forma de estar e de actuar, mas as formigas (os eleitores) também têm de perceber que votar no insecticida foi um erro tremendo.

Tremendo e perigoso, acrescento.