Afinal, Charli XCX não vai salvar o verão - mas pode bem salvar-nos a todos

Dois anos e pouco depois de Brat, o disco-fenómeno que virou a cultura pop do avesso, o “disco verde” que cunhou novas expressões no linguajar juvenil - a mais popular das quais, Brat Summer -, que inventou uma nova rebeldia e que deu glamour a uma atitude irresponsável, deliciosamente decadente, eis-nos aqui. A festa acabou, as luzes apagaram-se, a música já se ouve ao fundo, mais baixinho, parece já um eco vago e confuso das festas aceleradas, regadas a speeds, que canções como 360, Von dutch e Everything is Romantic (de Brat) musicavam.

De certo modo, é a isto que soa Music, Fashion, Film, o novo álbum acabado de editar (esta sexta-feira, 24 de julho) pela estrela pop britânica Charli XCX. É aquilo a que os críticos e ouvintes mais casuais haverão de chamar um “álbum maduro” - ainda que aqui maduro não signifique chato (como tantas vezes significa), signifique antes adulto.

Felizmente, "maduro" aqui soa bem. O jornal britânico The Guardian chama-lhe já “uma obra-prima meta sobre a instabilidade da identidade”, a revista musical Pitchfork atribui-lhe uma pontuação de 8.2 de 0 a 10 (o que lhe garante entrada no lote restrito da categoria “Melhor Música Nova”) e a publicação musical Stereogum diz que este é um disco “que compreende que as fantasias não são reais. O estrelato pop não é real. O ‘para sempre’ não é real” - e acrescenta, mais à frente, é um disco feito por alguém que percebeu que “alguma arte não te está a tentar salvar, está a tentar fazer-te companhia enquanto nada te salva e todas as pessoas que a criaram já desapareceram.”

Maturidade, portanto. Também de escrita. E um certo niilismo, um desencantamento com o futuro. Logo na primeira canção, Rock Music, Charli XCX cria a primeira ilusão. O som é diferente - as guitarras distorcidas, aqui como nas outras canções, passam a servir de âncora às canções -, a neurose é outra, soa menos festiva e mais agreste, mas os primeiros versos enganam: “Me and my friends / we go out, we take pictures and make stuff together / and sometimes we cry / we kiss each other, real incestuous vibes”.

Pode parecer que vem aí mais do mesmo, um disco sobre a beleza de se ser irreverente, despreocupado, obcecado com gozar a vida de pé no acelerador e a cara borrada da maquilhagem, mas afinal não é bem isso. “I think the dance floor is dead / so now we’re making rock music”, cantará Charli XCX mais à frente. Não, isto não é rock music, pelo menos rock music que siga os padrões convencionais e clássicos da música rock, mas talvez a pista de dança esteja mesmo morta, como Charli XCX canta.

É preciso lembrar que Charli é uma millennial, está mais para o adulta do que para o adolescente, e a Geração Z, na sua maioria, prefere quase tudo (por quase tudo, leia-se tostas de abacate, chávenas de matcha e aulas de cycling temáticas) a pistas de dança com chão a colar, chegadas a casa depois do sol nascer e maços de cigarros fumados em catadupa de madrugada.

Nada disto, porém, parece apenas estratégico, é como se Charli XCX nos quisesse dizer que “é a idade, estúpidos”. Já depois de confessar uma apatia imensa na canção inaugural, uma despreocupação com a dor que é causada por um formigueiro paralisante, explica no segundo tema, SS26, essa perda de ilusões e fantasias de que a juventude se alimenta: “Primavera-verão ‘26, quando o mundo vai acabar, não há esperança para nada (...) nada nos vai salvar, nem a música nem a moda nem os filmes.

Os temas vão avançando e a toada vai-se instalando: sons industriais, construídos com tensão e desconforto, às vezes quase pós-punk, vozes que se misturam, a tal neurose, lá está, que Charli XCX consegue cantar e tocar como se fosse só sua, como se nunca a tivéssemos ouvido antes. E vamos ouvindo a antiga miúda-modelo das festas e da decadência cool cantar-nos que “estou quase a fazer 34”, que “toda esta dor faz-me acreditar que sou uma artista melhor”. A mesma miúda-modelo que, canta, “costumava saltar em trampolins sem roupa interior”, o que faz agora? “Só uso calças”, explica candidamente. “Esta é a verdade, e tenho de ser honesta: já não sou mais uma bad girl”, uma rebelde. “Yeah, people can change”, resume com candura.

Sim, ainda há aqui sintetizadores, ainda há aqui eletrónica, ainda há aqui uma fórmula musical que Charli XCX inventa e torna sua, diferente de tudo o que se vai ouvindo dos seus pares - e contra originalidade, não há argumentos. Mas Music, Fashion, Film já não é o disco de uma foliona de sábado à noite, é o disco de uma trintona que está mais preocupada com o facto da embriaguez lhe dar insónias, alguém que apurou os dotes de escrita e se renovou como compositora sem perder a verve.

Este é, afinal, um álbum de uma mulher à procura: da vida, de si mesmo, de compreender os outros e de se compreender a si própria. Um disco de alguém que perdeu a ingenuidade de acreditar nas encenações performáticas, suas e dos outros (Persona é, nisso, de uma clarividência absoluta: “Estamos ambos sob a influência da vida que imita a arte”, canta nesse tema) e que, como explica bem na faixa que encerra o disco, com participação do cineasta David Cronenberg, já se apercebeu de que nada dura para sempre. Bem-vinda à vida adulta, Charli.

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