Há hábitos e experiências que marcam o percurso de uma mulher muito antes de ela assinar o seu primeiro contrato de trabalho ou de ocupar a cadeira principal numa sala de reuniões. Se recuarmos no tempo e observarmos o passado das grandes líderes corporativas, encontramos algo em comum que à primeira vista não parece muito relevante, mas que molda profundamente a postura de quem chega ao topo: o facto de terem feito desporto. Os dados internacionais deixam pouca margem para dúvidas quanto à ligação entre o sucesso e a prática desportiva. Segundo um estudo global realizado pela Ernst & Young (EY) em parceria com a espnW, intitulado "Where will you find your next leader?", 94% das mulheres em cargos executivos de topo praticaram desportos, sendo que mais de 52% mantiveram a prática no nível universitário ou de alta competição. Entre as líderes de empresas da Fortune 500 (lista das maiores 500 empresas dos Estados Unidos), a tendência confirma-se. 80% jogaram em equipas durante a infância ou juventude, e 74% garantiram que o seu passado desportivo as ajudou na progressão da carreira.
Para estas mulheres o desporto potenciou muito mais do que a condição física: estendeu-se a competências que vão além da saúde e que nenhuma sala de aula lhes conseguiu ensinar. Uma investigação académica realizada na Universidade de Brasília (UnB, 2024) analisou o impacto das competências adquiridas no desporto em relação ao aumento da produtividade, comprovando que as life skills desenvolvidas no campo se convertem nas soft skills mais procuradas no mercado. A investigação revelou também que a gestão do stress e a inteligência emocional são as áreas onde mais participantes adquiriram competências. Os exemplos mostram que saber lidar com derrotas, lesões ou ansiedade as ensina a saber manter a calma nos momentos necessários. Que o hábito de tomar decisões em poucos segundos durante os jogos desenvolve a clareza cognitiva e rapidez de resposta no trabalho. E ainda que o rigor diário dos treinos cria profissionais altamente disciplinadas, éticas e orientadas para o cumprimento de metas a curto e longo prazo.
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O mesmo estudo demonstrou também que cada modalidade molda competências específicas. Por um lado, os desportos individuais, como as artes marciais ou o ballet, desenvolvem níveis elevados de disciplina pessoal, compromisso, autogestão e capacidade de resolver problemas autonomamente. Por outro lado, os desportos coletivos, como o futebol ou o basquetebol, melhoram a comunicação verbal, o trabalho em equipa, a empatia e a resolução de conflitos interpessoais. Já os desportos de resistência, como a natação e a corrida, fortalecem a capacidade de gestão de esforço, a resiliência individual e a consistência mental (em caso de dúvida, o melhor é mesmo praticar um de cada categoria).
Se o desporto é este berço indiscutível de liderança, o investimento tem de começar cedo. Contudo, dados do relatório State of Play, do Project Play / Aspen Institute, alertam para uma realidade que prejudica as raparigas. Estas têm tendência a abandonar a prática desportiva substancialmente mais cedo do que os rapazes e sobretudo durante a adolescência. O estudo revela que um dos segredos para inverter este cenário passa por melhorar o ambiente desportivo. Quando uma rapariga sente que a sua voz é ouvida e valorizada pelos seus treinadores e equipa, a probabilidade de continuar a praticar desporto aumenta em 2,5 vezes.
Apoiar e incentivar a sua filha a praticar desporto na infância e na adolescência deixou de ser apenas sobre saúde ou ocupação de tempos livres. Passou a ser uma estratégia para potenciar a melhor versão delas mesmas. Na próxima vez que elas quiserem desistir lembrem-nas que esse pode ser o primeiro passo para serem uma CEO de sucesso no futuro.
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