Há 30 anos, o Estado português pagou 130 milhões de euros para cancelar a construção de uma grande barragem e evitar a submersão da arte rupestre do vale do Côa. Agora, os arqueólogos estão muito preocupados: por causa de um resto dessa mesma obra, 119 gravuras que “não sabem nadar” estão sujeitas a cheias cada vez mais prolongadas. O património mundial está em risco
Em 1996, os alunos da Escola Secundária de Vila Nova de Foz Côa que seguiam em dois autocarros a caminho do parlamento, em Lisboa, apanharam um susto. Quando chegaram à entrada da capital tinham quatro motas da polícia à sua espera.
Após mais de um ano de protestos para tentar parar a construção daquela que seria uma das maiores barragens de Portugal, aquelas motas eram um mistério - afinal, tinham sido convidados pelo próprio governo para estarem presentes na Assembleia da República.
Pedro Frade era um dos alunos que seguia no autocarro e ter-se-á, talvez, lembrado de alguns dos episódios que viveu no ano anterior: o momento em que cortaram uma estrada nacional e foram arrastados pela polícia; as noites a tentar esvaziar os depósitos de combustível de máquinas que faziam as obras da barragem; ou os dias em greve de fome amarrado a uma rocha com uma gravura rupestre, enquanto pousava para as máquinas fotográficas dos jornalistas que se atreviam a percorrer as longas distâncias que na altura separavam - ainda mais do que hoje - as grandes cidades de Vila Nova de Foz Côa.
Alunos contra adultos
A luta pelas gravuras rupestres do Côa, que marcou a história política e social de Portugal a meio da década de 1990, radicalizou-se e dividiu a população daquele concelho do distrito da Guarda.
Sofia Ribeiro, também antiga estudante da escola secundária, conta que, “na fase inicial, os alunos lutaram contra a população da vila”. A maioria dos adultos defendiam a construção da barragem.
Mesmo que momentaneamente, a construção da barragem trazia empregos a uma região onde estes escasseiam. E os terrenos inundados seriam comprados a bom preço pela empresa de eletricidade.
Sofia e Rita Ribeiro, outra antiga estudante, recordam as perseguições e ameaças que os alunos tiveram, incluindo através de papelinhos com avisos de bomba, estrategicamente colocados à porta de casa numa localidade pequena onde todos se conhecem…
No final de 1995, porém, o governo mudou e a causa dos alunos passou a ter o apoio de quem decidia os destinos do país. A barragem foi suspensa e mais tarde definitivamente cancelada, numa altura em que já se perspectivava que o vasto conjunto de arte do paleolítico entretanto descoberto – o maior do planeta ao ar livre – seria classificado como património mundial da humanidade.
Até à luta pelas gravuras, recorda Sofia Ribeiro, quase ninguém em Portugal sabia que Foz Côa sequer existia e muito menos onde se localizava no mapa... Hoje todos associam a vila às gravuras feitas no mais antigo período da história humana.
Escoltados pela polícia
As motas que naquele dia de viagem até Lisboa esperavam pelos alunos não passavam, afinal, de uma medida para evitar atrasos. O presidente do Parlamento tinha pedido ajuda policial para que os alunos não chegassem tarde ao momento em que o então primeiro-ministro, António Guterres, anunciaria a suspensão da barragem.
Com quatro motas policiais a abrir caminho pelo trânsito da capital, o antigo aluno Pedro Frade recorda a adrenalina daquele momento, “inesquecível”, para um grupo de miúdos vindos de um meio pequeno do interior profundo de Portugal.
Um ano antes, o cancelamento da construção da barragem parecia uma missão impossível. A obra já estava avançada e a decisão obrigou o novo governo a pagar uma indemnização de 130 milhões de euros à EDP, a empresa de eletricidade que estava a construir e iria explorar a infra-estrutura.
A ferida na paisagem
Passaram trinta anos e apesar dos mais de 50 mil turistas que anualmente visitam Foz Côa, poucos chegam a vislumbrar o local onde seria construída a barragem que nunca foi concluída.
Pelo contrário, quem faz os caminhos secundários sem saída – por vezes obstruídos por ervas que quase cresceram até ao tamanho de árvores, por cima do alcatrão – encontra tudo como estava há três décadas.
Os buracos escavados para as fundações da enorme barragem (de 136 metros) mantêm a ferida aberta na paisagem e os muitos edifícios e estruturas de apoio à construção apenas envelheceram.
A zona tornou-se um vasto estaleiro abandonado ao ar livre, mas há uma obra que deixou ainda mais marcas e que se encontra exatamente no meio do Côa: uma pequena barragem provisória construída para secar o leito do rio e permitir a construção da grande barragem que, entretanto, foi cancelada.
Tecnicamente conhecida como ensecadeira, a pequena barragem provisória tornou-se uma estrutura que se mantém há três décadas, apesar de inútil – como está escrito num plano nacional do Estado, de 2017, para remover barreiras obsoletas em rios.
Apesar de previsto há quase dez anos, derrubar este resto da construção da grande barragem do Côa nunca aconteceu. A última estimativa para as obras indica que essa demolição custará pelo menos 4,5 milhões de euros – preços que sobem de ano para ano… -, dinheiro que até podia vir da União Europeia se os últimos governos tivessem sido mais rápidos.
"As gravuras ainda não aprenderam a nadar"
Apesar de pequena comparando com a grande barragem que estava prevista para o local, a ensecadeira não é, na verdade, assim tão pequena: tem 32 metros de altura desde o fundo do rio até ao topo e 10 metros estão, habitualmente, fora de água.
O problema surge nos dias em que chove muito: a água não consegue escoar pelo pequeno buraco escavado ao lado, na rocha, e a água sobe os tais 10 metros, inundando o vale do Côa ao longo de cerca de dez quilómetros, submergindo 119 gravuras rupestres que, curiosamente, são as mais importantes do património mundial.
Por causa da tal ensecadeira ou pequena barragem, nos últimos 30 anos “temos registado, e não é número total, mais de 500 dias de cheia”, conta Luís Luís, arqueólogo da Fundação Côa Parque que há dez anos fez um estudo para tentar compreender aquilo que nunca se viu antes de 1996 no vale do Côa: cheias recorrentes e prolongadas.
Recordando o slogan dos alunos que tornaram famosa a causa das gravuras rupestres, o artigo científico tem um título sugestivo, pouco comum em (aborrecidos) textos académicos: “As gravuras ainda não aprenderam a nadar”.
O artigo explica que desde 1996 o Côa “apresenta uma frequência extraordinária de cheias, desconhecida historicamente e praticamente ignorada na atualidade". "Embora abandonadas, as obras realizadas para a construção da barragem de Vila Nova de Foz Côa continuam ainda hoje a pôr em causa a preservação da arte do Côa".
"A tempestade perfeita"
O diagnóstico feito em em 2018 por Luís Luís já tinha surgido pelo menos uma vez antes, em 2001, noutro relatório, mas parece ter sido ignorado ou esquecido.
Thierry Aubry, arqueólogo e coordenador científico da Fundação Côa Parque, subscreve as conclusões do colega e diz que estamos, sem dúvida, no caminho da degradação das gravuras, algo ainda mais surpreendente tendo em conta que se conhece a origem do problema.
Outro arqueólogo, Miguel Almeida, tem feito avaliações do impacto das cheias nas gravuras rupestres do Côa e admite que enfrentam “a tempestade perfeita”, comparando a situação com um quadro famoso: “Imaginem que a solução que nós tínhamos para preservar a Monalisa” era pô-la sucessivamente dentro e fora de água… “Ao fim de um ano não havia quadro”.
Os sucessivos ciclos de molhagem e secagem, conjugados com areias, lamas, troncos e lixo arrastados pelas cheias que tocam nas gravuras rupestres e preenchem os espaços entre as rochas – potenciando o crescimento de plantas – significam um caminho para a degradação de um património mundial que foi gravado em rochas há dezenas de milhares de anos e que resistiu devido ao clima seco típico do vale do Côa.
Nos últimos 30 anos, por causa da ensecadeira, o cenário anterior mudou completamente e as sucessivas cheias, naturalmente, “degradam muito rapidamente qualquer objeto de natureza geológica”, como refere Miguel Almeida, mesmo que essa degradação só se possa vir a notar a sério daqui a anos ou décadas.
Alterações climáticas agravam problema
“Percebemos que isto pode ter um impacto gravíssimo a médio e longo prazo”, diz o arqueólogo Luís Luís: “Em poucos anos a ação humana provocou uma alteração brutal no sistema que permitia a preservação desta arte”.
Pior, acrescenta Thierry Aubry, o responsável científico do parque arqueológico, tudo isto “está a acelerar” pois as alterações climáticas estão a provocar cada vez mais episódios de muita chuva que se prolongam por progressivamente mais tempo – água que sem a pequena barragem naturalmente correria pelo rio, sem provocar qualquer cheia.
Só no último inverno as gravuras foram afectadas por sucessivas cheias que ao todo se prolongaram por mais de um mês, impedindo as visitas a todos os quatro núcleos de gravuras por onde passam os turistas.
A ensecadeira conjugada com as chuvas fortes mais frequentes fazem com que o vale do Côa tenha passado a ter momentos de cheia pelo menos uma vez por ano – por vezes mais… –, algo que no passado, historicamente, só acontecia uma vez a cada século.
O potencial destruidor é "incalculável"
Miguel Almeida admite que o cenário anterior de cheias anuais o leva a admitir que as gravuras do Côa se estarão a degradar talvez cem vezes mais rápido do que se não existisse a pequena barragem onde por vezes, confessa, tem vontade de colocar uma bomba pois nunca serviu para nada, excepto para estragar um património mundial que obteve, pela sua raridade, a mais rápida classificação desse tipo atribuída pela UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.
Após um abandono da barragem provisória que durou três décadas e apesar das últimas promessas de demolição feitas pela Agência Portuguesa do Ambiente – a única entidade envolvida neste processo que não aceitou dar uma entrevista ao Exclusivo da TVI -, os peritos em gravuras rupestres e no rio Côa só acreditam quando as obras começarem mesmo.
João Zilhão, ex-presidente do Instituto Português de Arqueologia, não tem dúvidas: se nada for feito rapidamente este é “um problema sério que vai gerar uma situação de degradação que implicará a passagem, seguramente, à lista do património mundial em perigo”.
Um dos estudos feitos nos últimos anos para estudar a remoção da ensecadeira do Côa avisa, aliás, que “o potencial destruidor do património pelos impactos das cheias é incalculável”.