O fim das linhas vermelhas acabou com o Bloco. Ainda as querem para o Chega?

Umarells. É este o nome que os italianos dão aos velhotes que param a olhar para as obras, e como eu me sinto neste assunto. Não sou parte interessada, só vim ver a bola, o Chega não me basta nem mais nem menos do que o PSD, e a minha direita está bem a leste dos partidos da Assembleia.

Ainda assim, assisti, como toda a gente, à ferida que esta expressão – “linhas vermelhas” – abriu na direita. Ainda me lembro de aparecer, em 2020, um hoje impensável Movimento 5.7, que pariu um livro onde escreveu uma multidão mais vasta que os filhos de Jacob, gente de vários partidos, ideias de “federar as direitas”, e o diabo (tomara a nós que o diabo fosse tão inocente) a sete.

Pouco depois, saíam manifestos nos jornais, os barulhentos acusavam os silenciosos, os silenciosos protestavam contra os inquisidores, a conivência com o Chega era horrorosa para uns, a ingenuidade e o conluio com a esquerda intoleráveis para outros, e num ápice, por causa desta simples expressão – linhas vermelhas, devia-se ou não adoptar linhas vermelhas com o Chega – a tal federação esfarinhou-se antes de nascer.

Note-se bem a força da discussão. Não se trata apenas de uma divisão entre quem apoia o Chega e quem apoia outros partidos; é uma discussão que, embora feita apenas entre quem não é do Chega, arrasta metade desses não-apoiantes para a alçada do partido, só por acharem que pode haver pontos de entendimento com ele. Nenhum partido pode sonhar com uma posição melhor: tem do seu lado não só os seus, mas todos os que, jurando a pés juntos que não fazem parte do clube de Ventura, são empurrados pelos outros para a boca do grande papão. Geralmente, já é mau sinal quando uma força política apenas reage ao seu adversário. Quando se dá um passo em frente e a maneira de lidar com um rival se torna o eixo a partir do qual uma força se divide, não há sirene que apite com força suficiente.

É certo que, fruto das circunstâncias – ou porque alguns, como previam os mais ascetas, fruto do conúbio acabaram mesmo por ir parar ao Chega, ou porque se tornou de facto impossível, do ponto de vista prático, manter a linha muito vincada – esta conversa foi esmorecendo nos últimos tempos; ainda assim, vale a pena ressuscitá-la a propósito de uma notícia recente. Mário Tomé e mais cinquenta e nove companheiros (parece o nome de um grupo de mártires do tempo da Expansão) abandonaram o Bloco de Esquerda, desiludidos com o núcleo dirigente, que tornou o Bloco irreconhecível e que acusam de se ter “iludido com o PS durante a geringonça”.

Não sabemos quantos ficam, depois desta debandada, e temos de abrir uns parênteses para elogiar a abnegação de Mário Tomé. A geringonça surgiu em 2015; a geringonça acabou formalmente em 2019; Mário Tomé anda pelo menos há sete anos com o sapo na boca, a tentar engoli-lo sem que ele desça. Fartou-se agora, quando o sapo já teria com certeza criado um pântano bonito entre os molares de Mário Tomé, e vai soltá-lo num mundo sombrio, em que o grande maciço do Bloco já mais parece uma ruína.

Ora, sete anos são muitos para aguentar um sapo na boca, mas não são muitos para um partido. O que é que aconteceu entretanto ao Bloco? Porque é que o partido enérgico e viçoso que arrebanhava sem esforço a juventude parece hoje moribundo?

Um dos argumentos clássicos para o estabelecimento das linhas vermelhas vem do governo de von Pappen, que acolheu um Hitler minoritário e acabou espremido no abraço da jiboia; contudo, talvez não seja preciso recuar até à República de Weimar para encontrar os efeitos das linhas vermelhas; basta ver o Bloco, ou PCP ou o CDS para perceber o que o governo pode fazer a um pendente do governo. É certo que a conversa das linhas vermelhas tem, também ela, muitas linhas, que é feita no pressuposto de que Ventura viria a correr se fosse chamado, e tem também muitos maranhos. Há uma diferença muito grande entre não querer linhas vermelhas por se estar num flirt com a outra parte e querê-la no governo e não querer linhas vermelhas por se acreditar que o embate com a realidade atrairia uma multidão barulhenta para as nossas posições e diluiria uma força crítica escorada em propostas utópicas ou estapafúrdias.

Daí que eu repita: estou só a ver as obras, e pouco me dá quem ganha o braço de ferro da Assembleia; mas custa-me ver um mundo que ainda assim me é caro implodir por causa de uma questão estratégica, como se as consequências de seguir ou não linhas vermelhas fossem inevitáveis e sempre as mesmas. Não são, e em política nem sempre as mesmas causas produzem os mesmos efeitos. Olhem para Mário Tomé e para o sapo que ele, por mais anos que passassem, por mais água que bebesse, não conseguiu engolir.