A tomada da Bastilha

Passou relativamente despercebida em Portugal a celebração do Dia da Bastilha. O mais importante feriado secular francês, celebrado a 14 de julho, representa a conquista por parte dos revolucionários jacobinos da prisão fortaleza parisiense no ano de 1789, marcando o início oficial da Revolução Francesa. Na altura do assalto, todavia, apenas se mantinham encarcerados sete ou oito prisioneiros, entre os quais, o libertino Marquês de Sade.

Num gesto simbólico, a chave principal do sinistro edifício foi entregue ao Marquês de Lafayette, um alto militar experimentado na guerra da independência americana, ao qual foi atribuída a responsabilidade de assumir a ordem imposta pela recém-criada Guarda Nacional. Além do simbolismo, foi a devoção do Marquês a George Washington, a principal figura e líder dos rebeldes americanos contra o Império Britânico, que levou ao desejo de oferecer ao futuro primeiro presidente dos EUA o referido objeto. A chave repousa hoje no hall central da mansão Mount Vernon.

Esta especial admiração pode-se medir pelo nome de batismo do filho do francês, nada menos do que George Washington Motier de Lafayette: uma homenagem de respeito e amor ao meu querido amigo. A relação foi construída no tempo passado de Lafayette, à semelhança de muitos dos seus conterrâneos, na luta em terras do novo continente pela separação com a metrópole. Os gauleses, inimigos tradicionais dos anglo-saxónicos, não perderiam a oportunidade de vingar muitas batalhas contra os habitantes do outro lado do Canal.

A Revolução Francesa, não nos podemos esquecer, deve muito à contraparte americana, nomeadamente, aos seus ideais de liberdade. As ideias que o Marquês trouxe consigo na bagagem bateram fundo em França, e se os caminhos em Paris se desviaram dos das treze colónias, facto que Hannah Arendt tão bem explicou, o ideal permaneceu relativamente incólume até ao Terror.

Após ser durante décadas desvalorizada como uma revolução falhada, finalmente, a revolta dos súbditos americanos é encarada conforme merece: como um momento fulcral na História. Inaugurando uma nova via política, republicana e democrática, reacenderam a chama romana da cidadania em plena modernidade. A Revolução Francesa, realizada com revolta e raiva pela populaça ao lado da burguesia, não evitou cair na barbárie, sendo o protótipo da revolução que devora os próprios filhos. Na sede de vingança popular e na ânsia de poder burguês, os revolucionários ficaram obcecados pela cabeça do monarca. A miséria nunca é boa conselheira, e a falta de pão na mesa, ativou a insensibilidade e avivou a destemperança do ódio e desprezo pela família real: em resultado, tudo devia mudar, tudo devia começar de início, num novo tempo com um novo Homem.

Na América do Norte, a monarquia britânica era admirada e à partida e sem qualquer preconceito, a figura de um rei não estava deslocada. Contudo, a famosa declamação no taxation without representation, encadeou a revolta dos habitantes da colónia. Sem conhecer os atos violentos e sádicos da versão francesa, a revolução no novo continente decorreu, com garra e ganas, sem dúvida, mas com um respeito mútuo entre contendores. Não houve guilhotina na América. Qual a razão de não haver uma nova dinastia no novo país? De uma maneira simples, podemos responder: porque George Washington não o quis. Não haveria lugar para o trono nos EUA. Cada um entre iguais, foi a fórmula que os Founding Fathers encontraram mais apropriada à nova situação política.

Influenciado pela esquerda, o cidadão comum considera ainda hoje como paradigma de uma Revolução a situação francesa. A Revolução Bolchevique acentuou essa visão em que para ocorrer uma verdadeira mudança são necessários atos sem misericórdia, ódio visceral e sangue a correr pelas ruas. A rutura não acontece sem choque frontal com o Antigo. A versão americana ensinou-nos que o cavalheirismo é possível – é necessário – mesmo em situações abruptas. E Washington era, acima de tudo, um cavalheiro.