A política não é um teatro

Uma oposição séria exige responsabilidade política, capacidade de análise, apresentação de alternativas e coragem para contrariar decisões que não defendem os interesses da população.

Concordo.

Mas uma oposição séria também exige coragem para decidir.

Há uma ideia demasiado instalada na política de que fazer oposição significa ser contra todas as propostas apresentadas por outras forças políticas, como se cada voto favorável representasse uma cedência ao poder.

Não representa.

Votar contra sem analisar é tão irresponsável como votar a favor ou abster-se sem questionar. A qualidade da oposição mede-se pela capacidade de estudar cada proposta, fiscalizar quem governa e decidir em função dos interesses da população.

Não pertenço a uma oposição automática. Não acredito numa política em que o sentido de voto seja decidido antecipadamente, apenas em função de quem apresenta a proposta. Uma decisão não se torna prejudicial só porque vem de outra força política, da mesma forma que não se torna positiva apenas por vir do nosso próprio partido.

Cada proposta deve ser avaliada pelo seu conteúdo.

Se entender que uma decisão é prejudicial, votarei contra. Se considerar que é positiva, votarei a favor. Se subsistirem dúvidas relevantes, poderei abster-me.

Mas votarei sempre de acordo com a minha consciência. Não para cumprir o papel que alguns esperam de uma deputada da oposição, nem para poder publicar, no dia seguinte, que fui a única pessoa suficientemente corajosa para dizer não.

A política não é um teatro em que ganha quem aparenta maior indignação. Também não é uma competição para ver quem repete mais vezes as palavras oposição, fiscalização e transparência.

A política faz-se de decisões.

É, por isso, curioso assistir a lições públicas sobre firmeza política vindas de quem, no momento de assumir uma posição, escolhe a abstenção.

A abstenção é legítima. Pode resultar de dúvidas, reservas ou falta de informação e, em certas circunstâncias, pode até ser a posição mais responsável.

Mas dificilmente pode ser apresentada como prova de coragem política quando, ao mesmo tempo, se acusa quem votou favoravelmente de falta de firmeza.

Quem se abstém decide não aprovar, mas também decide não rejeitar. Não pode depois comportar-se como se tivesse liderado uma resistência contra uma decisão que, no momento de votar, não considerou suficientemente grave para chumbar.

Há uma incoerência evidente em afirmar que uma decisão é gravemente prejudicial para a população e, ainda assim, optar pela abstenção.

Se a decisão fosse, de facto, tão injusta ou tão prejudicial, seria de esperar um voto contra. Esse seria o momento de contrariar. Esse seria o momento de demonstrar a coragem política tantas vezes exigida aos outros.

É fácil ser firme depois da votação. É fácil transformar uma publicação numa declaração de princípios e apresentar-se como guardião dos interesses da população.

Mais difícil é assumir, no momento certo, uma posição clara e aceitar as consequências dessa escolha.

Eu não votarei contra apenas para parecer oposição. Também não me absterei para evitar responsabilidades e, mais tarde, criticar quem teve a coragem de decidir.

O meu papel não é criar dificuldades ao Executivo por estratégia partidária. É fiscalizar, questionar, apresentar alternativas e contribuir para que sejam tomadas as melhores decisões possíveis.

Quando entender que o Executivo está errado, direi claramente que está errado. Quando considerar que uma proposta beneficia a população, reconhecê-lo-ei sem qualquer problema.

Isso não é falta de oposição.

É independência.

A verdadeira independência política demonstra-se quando somos capazes de votar a favor, contra ou de nos abster, explicando de forma séria e coerente as razões dessa decisão.

Demonstra-se também quando respeitamos os factos e não os alteramos para atacar quem votou de forma diferente.

Em democracia, é legítimo discordar de um voto favorável e considerar que outra decisão teria sido mais adequada.

O que não é legítimo é exigir aos outros uma coragem que nós próprios não demonstrámos.

Uma oposição séria exige responsabilidade política, capacidade de análise, apresentação de alternativas e coragem para contrariar decisões que não defendem os interesses da população.

É verdade.

Mas essa coragem não se demonstra através de publicações feitas depois da votação.

Demonstra-se no momento em que é preciso votar.

E, por vezes, entre o voto favorável de quem decidiu em consciência e a abstenção de quem depois se proclama oposição firme, a verdadeira coragem política não está onde alguns gostariam de fazer parecer.