A nossa tão difícil “paz” (desde a Teologia Espiritual)

Caros leitores e caras pessoas (que, espero, sejam a maior parte dos meus futuríveis leitores, embora haja mais indivíduos e gente do que propriamente pessoas): se estais a olhar para ou a ler estas palavras, fiquem sabendo, desde já, que este não será um daqueles bons textos que, uma vez desfrutados, retiram o prazer de se ler maus textos e abrem a mente para hábitos de pensamento criativo. Efetivamente, já me convenceram de que a minha prosa teológica não diz nada… duas vezes.

Seja como for, estas palavras decorrem da “islâmica ‘never ending war’” (noção infelizmente decorrente das obras islâmicas ortodoxas quando ortodoxamente interpretadas) que no conflito do Irão está a ter apenas mais uma página. Mas não é sobre a “guerra” que pretendo falar, antes, e desde a pobre e simples Teologia Espiritual, da nossa excessivamente inconstante “paz”.

É certo que milhares de outros textos já foram escritos sobre esta nos últimos tempos, todavia, os que surgiram desde o âmbito da Teologia pautaram-se seja pela ambiguidade arredondada, seja por partirem de uma Moral que, devido à sua falência coeva, se tem revelado mortal (já aqui falei sobre isso e lá tenciono voltar oportunamente). Ou, segundo palavras que tomo emprestadas de Shakespeare [o William, escritor, não o Percy, pintor], a moral tem-se mostrado uma «old crab-tree». 

De facto, é com supina tristeza que constato que esta área da Teologia, que até pretende ser uma “Teologia Primeira”, não mais conseguiu manter a sua grandeza áurea atingida nos tempos dos seus manuais acerca do “coitus interruptus”.

É justamente por isto que, além do mencionado propósito de revisitar o seu estado atual, desejo também, e sempre desde a Teologia Espiritual, vir a poder dar a público – neste Órgão Informativo e com uma periodicidade incerta (é sempre arriscado fazer-se previsões, mormente acerca do futuro) – uma série de textos que tão mal foram tratados pela dita Moral. Textos sobre: o trabalho, as “obras” de Marko Rupnik e, entre outros, a Encíclica “Magnifica humanitas” e o horror do Calvinismo (hoje disfarçado sob outras designações).

Antes de, finalmente, me centrar na temática deste texto, urge fazer um derradeiro reparo: as corridas redacionais breves não são a minha especialidade, sendo eu um escritor de longas distâncias. Na verdade, e mantendo-se a analogia provinda do atletismo, se eu participasse num sprint de 10 metros, com uma mulher grávida de oito meses e tacões altos finíssimos, era inevitável que acabasse em terceiro lugar. Perdoe-me, pois, se por falta de muito tempo para pensar, vos exigirei demasiado tempo para ler.

Vamos, então e de modo extensamente breve, à “paz”.

Qualquer discurso minimamente ajustado e coerente sobre a “paz” deve partir de um facto fundamental. A saber: se a violência é uma realidade constante no nosso Mundo (e se pensarmos que alguma vez não o será, é porque desconhecemos todos os dados da realidade) é, imediata e incontornavelmente, o reflexo de que, na maior parte dos casos, não passamos de seres humanos divididos interiormente.

Na verdade, o ser humano torna-se violento quando vive fechado em si mesmo, com medo de perder algo ou alguém, ou, então, de ser magoado. Enquanto vivermos no medo, no orgulho ou na aquiescência ao instinto de possessão, a paz exterior permanecerá eternamente frágil, senão mesmo impossível. Assim, a paz deve ser, acima de tudo, uma realidade íntima, ligada a um díptico que forma um só facto: a liberdade mais interior e a presença de Deus no nosso coração.

Falei de Deus. Falarei sobre Deus. Não menos por Ele ser, para mim, mais real do que eu mesmo, sendo, inclusive, o Motivo para eu ter razões para crer ser real e desejar partilhar o que agora estou a escrever. E afirmo isto, mesmo sabendo que há quem estime que pessoas como eu são como invisuais, dentro de um quarto às escuras, à procura de um gato que lá não está, e que, não obstante, afirmam tê-lo encontrado [Lewis Brown].

Seja. Com isso dou-me bem, mas não deixo de afirmar, com toda a veemência que consigo colocar nestas palavras, que vejo muitíssimo bem toda a realidade aberta e iluminada que está diante de mim (e, assim, a todos os “gatos” que nela estiverem), e isso diz-me: «Eu sou; Eu sou Amor; Eu estou contigo».

Ora bem, regressando presentemente – e após os dois pretéritos parágrafos, rabiscados para serem uma declaração de interesse para o bem do leitor deste texto – ao meu singelo discorrer sobre a “paz”, preciso de fazer uma observação. Deus não impõe a “paz” pela força. Deus é como uma Presença discreta que chama o ser humano a tornar-se plenamente humano. A “paz” é, portanto, uma cooperação interior com essa Presença, não uma imposição exógena a quem quer que seja.

A “paz”, assim, pressupõe uma conversão ao humano; pressupõe uma crença no humano existente e potencial que, como a crença em Deus, precisa de ser vivida. Não basta, de facto, crer em Deus. É preciso vivê-Lo para, numa simultaneidade progressiva, querer viver os demais e dar-lhes melhor vida – que é Vida. Neste contexto, a “paz” não é simplesmente a ausência de conflito e, sobretudo, não é algo que possa ser conseguido através do poder, do controlo ou mesmo apenas através de acordos.

A “paz” é, antes de mais, uma transformação do coração e, desse modo, carece de começar dentro de nós quando deixamos de estar fechados no nosso “ego” e nos tornamos capazes de amar, de acolher e de nos doar. [Nota importante: o termo “ego” é usado por mim, não no sentido freudiano, nem nas suas derivações tão a gosto dos “peritos” em espiritualidade “caramelo”, mas em sentido espiritual clássico; isto é, traduzindo o “‘eu’ encerrado sobre si e contra si”].

A “paz” nasce, então, quando qualquer um de nós deixa de se considerar o centro absoluto de si, dos demais e até de tudo, e se torna capaz de comunhão. Por outras palavras: ela nasce quando cada um de nós descobre uma liberdade intimíssima que lhe permite deixar de viver na esfera da apropriação ou na da rivalidade e, num ato inconsútil, se abre às margens infindas que permitem o amor. De facto, não há amor sem diferença (e a sua aceitação), mas diferença para uma união sem fusão.

Se assim é, também não estimo estar muito errado se disser que a “paz” provém do despojamento do “ego” e, por ela estar ligada à liberdade espiritual, consiste em sair do “eu possessivo” e do “eu agarrado a si” espinosista (expressões quase sinónimas do sentido do vocábulo “ego” usado em contexto espiritual) que não permitem o silêncio interior psicológico, muito menos o silêncio mais íntimo espiritual.

Não, pois, um silêncio vazio, mas um silêncio que permite ouvir com atenção; um silêncio vivo, habitado, que capacita a estar atento a Deus-Paz (por ser o Deus-Amor) e aos demais sem qualquer anuência voluntária e consciente a qualquer manifestação do tão comum instinto de dominação. Eis um instinto decorrente de também (mas, felizmente, não só) sermos herdeiros de inúmeras gerações de antepassados nossos que não eram mais do que a soma das suas pulsões viscerais e psíquicas, que os levavam a não poder fugir à lei do “mato ou submeto-me a quem (me) pode matar, ou, caso contrário, morro”.

Felizmente, o instinto antes referido está, em traços gerais, “domesticado” (seja a nível individual, seja social), mas, se formos sérios, reconheçamos que ainda estrebucha, não menos porque cada ser humano que vem maravilhosamente ao Mundo precisa de partir quase do “zero” no seu intento de domesticá-lo. Em consequência disto, a audaz paciência, a luminosa humildade e a corajosa abertura ao outro são sempre requeridas para que a “paz” brote.

Com efeito, e salientando neste momento o que já disse de passagem, a “paz” surge quando cada um de nós deixa de querer possuir, com toda a força, a nossa vida e aceita transformá-la numa dádiva em que passamos a existir no olhar do outro. Uma oferta a ser vivida na esfera ilimitada da dignidade de cada pessoa humana, a qual é um «espaço de um segredo divino» que deve ser reconhecido e feito reconhecer em cada um. Sim: a dignidade é infinita e absoluta! E é-o, pois cada um é um Rosto de Deus e um veículo do Eterno.

Assumir isto, muda a nossa maneira de olhar para os demais, e, por uma espécie de “aikido” espiritual, pode desarmar a violência. Só assim se poderá passar a viver aquela, tão frágil quão preciosa, «paz desarmada» tão propalada, por exemplo, por André Rebouças no século XIX. “Aikido”, sim, pois a “paz” nunca pode ser uma desculpa para a inércia; ela é uma criação contínua que se espalha.

Em suma: a violência tem a sua origem no coração de cada um de nós. Para mudarmos o Mundo em que vivemos, precisamos, portanto, de começar por uma conversão íntima ao reconhecimento dos demais, todos e quaisquer demais, como tão, ou até mais, valiosos do que cada um de nós. Mas será que queremos encetar tal caminho? É que, se não o quisermos, ninguém nos vai forçar a fazê-lo, mas, depois, não nos lamentemos!