A IA não torna a igualdade irrelevante. Torna a justiça mais urgente.

Há uma frase que resume bem uma tentação recorrente no entusiasmo tecnológico: a ideia de que a inteligência artificial, não resolvendo o gender gap, poderá torná-lo irrelevante. Foi essa a hipótese defendida recentemente aqui no Observador.

É uma hipótese interessante. Também é fundamentalmente enganadora. E o mais preocupante é que quem a defende parece não perceber porquê. E, precisamente por isso, merece ser discutida com cuidado.

Porque é parte de uma verdade parcial: a IA está, de facto, a mudar o trabalho, as competências valorizadas e a forma como produzimos. Mas a autora chega depressa demais a uma conclusão que a tecnologia, por si só, não pode garantir: confunde mudança tecnológica com progresso social. A inovação pode alterar processos, mas não elimina, por si só, os preconceitos, os enviesamentos ou as desigualdades que lhes dão origem.

A IA tem potencial para democratizar o acesso ao conhecimento, acelerar a produtividade e reduzir algumas barreiras. Mas uma tecnologia não substitui uma política de inclusão. Se os sistemas continuam a refletir os mesmos desequilíbrios, a inovação apenas os torna mais rápidos e mais difíceis de detetar. E aqui, o problema está em confundir essa potencialidade com uma forma automática de justiça.

A questão deixa de ser, portanto, apenas tecnológica e passa a ser social, política e moral. A desigualdade de género não resulta apenas de falta de competências ou de acesso à informação. Resulta da forma como as sociedades distribuem tempo, confiança, autoridade, recursos, oportunidades e poder de decisão. Nenhuma tecnologia, por mais transformadora que seja, entra num mundo vazio. Pelo contrário, entra num mundo já marcado por assimetrias e pode corrigi-las, reproduzi-las ou torná-las menos visíveis.

A história da inovação recomenda prudência. As tecnologias não existem fora dos contextos sociais em que são concebidas e implementadas. Incorporam prioridades, métricas e critérios; podem abrir possibilidades, mas também reproduzir, consciente ou inconscientemente, as estruturas das sociedades que as produzem. A Inteligência Artificial não é exceção.

É aqui que a Magnifica Humanitas, de Leão XIV, oferece um critério decisivo: a IA não deve ser lida como simples ferramenta neutra, mas como poder técnico que precisa de orientação humana, responsabilidade, transparência e governação. Uma tecnologia não é moralmente responsável como uma pessoa; mas também não é socialmente neutra como uma pedra. Mede, classifica e recomenda a partir de dados, objetivos e prioridades definidos por alguém.

Um algoritmo pode ser formalmente cego ao género e, ainda assim, reproduzir desigualdades de género por caminhos que nunca são nomeados. O histórico salarial está lá. Reflete décadas de mulheres a ganhar menos. As interrupções de carreira estão lá. Refletem quem cuida das crianças. As redes profissionais estão lá. Refletem décadas de homens a recrutar outros homens. A linguagem de autopromoção está lá. Reflete o que foi ensinado a cada género sobre como falar de si próprio.

O género pode desaparecer do formulário e permanecer no critério. A neutralidade formal não é justiça real.

Já existem sinais suficientes para levar o risco a sério: sistemas de recrutamento treinados com históricos dominados por homens; ferramentas biométricas com desempenhos desiguais; modelos generativos que associam liderança a homens e cuidado a mulheres. O ponto não é declarar a IA culpada por natureza. É reconhecer que, quando padrões sociais entram em sistemas automáticos, a discriminação muda de forma: deixa de parecer preconceito e passa a parecer cálculo.

Por isso, a discussão sobre igualdade de género na era da IA não pode ser reduzida à questão do acesso às ferramentas. A questão central é a participação e o controlo democrático. Quem define os problemas que merecem ser resolvidos? Quem desenvolve os sistemas? Quem estabelece os critérios de avaliação? Quem audita os resultados? Quem pode contestar uma decisão automatizada? Quem beneficia economicamente da inovação gerada?

Estas perguntas tornam-se especialmente relevantes quando a Inteligência Artificial passa a influenciar decisões com impacto na educação, no emprego, nos serviços públicos, na saúde e no acesso a oportunidades económicas. No trabalho, o risco é particularmente sensível: recrutamento, promoção, avaliação de desempenho e distribuição de tarefas são áreas em que uma aparência de objetividade pode ocultar escolhas que afetam diretamente direitos, reputação e futuro. Não é por acaso que a própria regulação europeia coloca a IA usada em recrutamento, promoção e gestão de trabalhadores entre os usos de alto risco.

A Inteligência Artificial oferece uma oportunidade extraordinária para repensar modelos económicos, acelerar a inovação e melhorar a vida das pessoas. Pode reduzir barreiras, apoiar trajetórias não lineares e valorizar competências antes periféricas. Mas o seu impacto social não está predeterminado, e essa é precisamente a razão para não lhe atribuirmos uma capacidade redentora que ela não possui.

Será o resultado das escolhas que fizermos hoje: nas políticas públicas que desenharmos, nos mecanismos de governação que implementarmos, na diversidade que promovemos e na visão de sociedade que decidirmos incorporar nos sistemas que estamos a construir. Porque a pergunta decisiva não é apenas quem usa IA, mas quem a desenha, quem a regula, quem lucra com ela e quem suporta os seus erros.

Porque a igualdade não é uma variável que a tecnologia possa tornar irrelevante. É o critério que permite saber se a tecnologia serviu a pessoa humana ou apenas tornou mais eficiente a velha distribuição do poder.

O argumento colocava a questão como binária: a IA resolve o gender gap, ou torna-o irrelevante. Ignora uma terceira, e talvez mais provável, possibilidade: a IA aprofunda o gender gap através de mecanismos menos visíveis. Por isso, num tempo em que qualquer opinião ganha alcance em segundos, a ignorância apresentada como certeza deixa de ser apenas um erro: torna-se um poderoso veículo de desinformação.

O perigo não é a IA não ver o género. O perigo é nós deixarmos de ver a desigualdade porque ela passou a falar a linguagem limpa dos dados. Uma transformação digital só merece esse nome quando é inclusiva, responsável e orientada para a dignidade humana; caso contrário, muda o instrumento, mas conserva a injustiça.

*Artigo em coautoria com Luísa Ribeiro Lopes, membro do Advisory Board da Women in Tech® Portugal.