Há uma ideia profundamente errada de que vivemos numa era de excesso de informação. Não vivemos. Vivemos numa era de excesso de validação.
Nietzsche percebeu, muito antes de existir internet, que o problema nunca foi a falta de verdade, mas a dificuldade em suportá-la e explorou ao longo da sua vida a tensão entre o caos do real e a forma humana de o tornar habitável. Porque o pensamento não se limita a espelhar o mundo, interpreta-o, organiza-o, e, por vezes, deforma-o para o tornar suportável.
A verdade raramente confirma aquilo em que gostaríamos de acreditar e por isso, é sistematicamente substituída por versões mais digeríveis e compatíveis com as nossas necessidades de pertença.
É nesse sentido que a distinção entre o apolíneo e o dionisíaco, em O Nascimento da Tragédia, ganha atualidade. O “apolíneo” representa a forma, a medida, a aparência de unidade, o “dionisíaco” remete para a desordem, a intensidade e a fragmentação da vida. O que vemos hoje nas redes sociais é esta pulsão levada ao extremo, em que deixa de haver mediação da realidade, substituindo-a por uma versão esteticamente organizada e emocionalmente habitável.
Cada perfil tornou-se uma construção cuidadosamente editada, onde se elimina o incómodo, se filtra a dissonância e se encena coerência onde ela, na verdade, não existe. O impulso “apolíneo”, que em Nietzsche equilibra o caos, converteu-se num mecanismo de defesa contra a complexidade do real. E cada opinião, longe de ser um exercício de ponderação, transforma-se num marcador de pertença. O utilizador não quer estar certo, quer estar acompanhado. Não procura nenhuma verdade, quer, sim, o conforto da confirmação.
A convicção deixa de ser uma conclusão do pensamento para se transformar numa extensão da própria identidade. E é por isso que se torna mais resistente do que a mentira, que maquilha a realidade, porque a mentira pode ser corrigida, mas a convicção, quando integrada no “eu”, tende a tornar-se impermeável ao contraditório.
Quando esta lógica sai das redes sociais e passa a estruturar a política, o problema torna-se evidente para as democracias liberais. A democracia não vive de unanimidades, é preciso a diferença para que os regimes liberais se equilibrem, mas também não resiste sem um mínimo de realidade partilhada. Sem esse chão comum, não há debate, só monólogos sobrepostos e o que se apresenta como pluralismo é apenas a coexistência de bolhas que não comunicam entre si, embora exijam igual legitimidade factual.
Tornou-se por isso inevitável, confundir respeito pelas opiniões com validação. Já não basta reconhecer o outro como interlocutor, exige-se que se aceite a sua versão dos factos, mesmo quando são manifestamente falsos. O contraditório passou a ser visto como uma forma de violência e a crítica, como desrespeito descabelado intolerante.
Neste ambiente, os extremos prosperam e mobilizam com facilidade, porque oferecem certezas, identidade e pertença.
Fazem-se vídeos curtos para agradar, promete-se o impossível porque é isso que é recompensado, adiam-se decisões difíceis porque são penalizadas. A política deixa, assim, de ser a gestão responsável do possível para se tornar na encenação permanente do desejável.
Nietzsche apresentou-nos a vontade de potência como uma dimensão constitutiva da ação humana. As redes sociais ofereceram uma caricatura dessa ideia, uma ilusão de poder sem consequências. Likes, seguidores e métricas que simulam influência e produzem uma sensação de relevância instantânea, um tipo de poder sem responsabilidade, e por isso profundamente vazio.
O problema é que quem se habitua a esta lógica passa depois a exigi-la da política, com resultados imediatos, validação constante e soluções instantâneas. Tudo aquilo que a realidade não permite. Entre os que recusam mudar e os que querem tudo de uma vez, instala-se um impasse que bloqueia as democracias liberais que se sustentam na vontade da maioria.
Nietzsche deixou-nos a intuição de que o problema não está nas mentiras que nos contam, mas, na verdade, que insistimos em não aceitar. É assim que o espaço público plural, informado e moderado vai morrendo, no fim, resta apenas uma guerra de validações.